O inconsciente do trabalhador moderno: entre insônia e a fantasia da carreira perfeita

29 setembro, 2025


“Doutora, deito cansado, mas minha mente não para. Fico repassando cada detalhe do dia, revisando mentalmente reuniões, listas de tarefas, e comparando meus resultados com os dos colegas. Acordo com o coração acelerado, como se tivesse passado a noite inteira em pé diante do computador.” - Paciente

Essa fala, ou algo muito semelhante a ela, repete-se com frequência na clínica. São homens e mulheres de diferentes idades e profissões, mas unidos por uma mesma experiência: a insônia que não se resolve com chás, aplicativos de meditação ou até mesmo medicamentos. O corpo pede descanso, mas o inconsciente insiste em manter o sujeito em vigília.

No cotidiano, essa insônia se traduz em olheiras profundas, cafezinhos multiplicados durante o dia, irritação constante, crises de ansiedade e uma sensação difusa de nunca estar “inteiramente presente”. É como se a vida fosse vivida pela metade: metade no trabalho, metade na cama, mas em nenhuma das duas o sujeito encontra repouso.

A noite, que deveria ser tempo de esquecimento, se converte em prolongamento do escritório. As planilhas invadem os sonhos, os prazos se transformam em pesadelos. O inconsciente, fiel à sua lógica, não permite que o sujeito escape do que o atormenta de dia. O leito, então, deixa de ser espaço de intimidade e repouso para se tornar palco de uma repetição incessante.

Freud já nos advertia que os sonhos realizam desejos inconscientes (Freud, 1900/2019). Mas que desejo é esse que insiste em nos manter despertos? Talvez o desejo de corresponder a um ideal que nunca se satisfaz. O trabalhador moderno não deseja apenas trabalhar: deseja performar, destacar-se, provar que merece o lugar que ocupa. Não basta cumprir a tarefa: é preciso encarnar a imagem de eficiência que a cultura contemporânea impõe.

Esse cenário não é apenas individual. Ele é social. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país mais ansioso do mundo (OMS, 2017). E uma pesquisa recente mostrou que 73% dos trabalhadores brasileiros sofrem de insônia ou de distúrbios do sono relacionados ao trabalho (Associação Brasileira do Sono, 2022). São números que ocupam manchetes de jornais, mas que, na clínica, se revelam em carne viva. Não se trata de estatística abstrata, mas de sujeitos que, noite após noite, tentam repousar e falham.

Essas notícias funcionam como espelho coletivo do que escutamos individualmente. E, no entanto, o mercado responde a esses dados com novos cursos de produtividade saudável, programas corporativos de bem-estar, aplicativos que prometem “sono profundo em minutos”. Tudo isso oferece paliativos, mas não toca o ponto central: a impossibilidade de parar quando se está capturado pela fantasia da carreira perfeita.

Essa fantasia opera como miragem: quanto mais se avança, mais distante ela se mostra. O sujeito acredita que, ao alcançar determinada promoção ou reconhecimento, finalmente encontrará descanso. Mas logo após a conquista, surge uma nova cobrança, um novo patamar a ser atingido. A sensação de insuficiência não se dissolve: ela se reinventa. É nesse ciclo interminável que a insônia se instala como companheira fiel.

A psicanálise nos ajuda a compreender esse movimento. Lacan nomeou o supereu como tirano silencioso que ordena: “Goza!” (Lacan, 1960/1998). Em nossos tempos, essa ordem se traduz em: “Produza sem parar, não falhe, esteja sempre disponível.” O trabalhador moderno obedece a essa voz até mesmo no sono. Não dormir torna-se prova de dedicação, sinal de comprometimento. Quantas vezes não escutamos alguém dizer com orgulho: “Durmo apenas quatro horas por noite, mas dou conta de tudo”?

O paradoxo é cruel: quanto mais se busca sucesso, mais se perde a possibilidade de descanso. O corpo denuncia com fadiga, crises de ansiedade, adoecimento físico. Os vínculos pessoais se enfraquecem, porque não sobra tempo nem presença para o outro. O sujeito passa a existir apenas em função da máquina produtiva, como se sua identidade se resumisse ao cargo que ocupa.

A insônia, então, é mais do que sintoma médico: é metáfora de uma sociedade em vigília permanente. Vivemos no ritmo das notificações, dos prazos e das métricas, sempre conectados, sempre comparando. O inconsciente denuncia, através da falta de sono, a impossibilidade de desligar-se de um Outro que nunca se satisfaz.

Mas, se escutamos a insônia como sintoma, algo se desloca. Não se trata apenas de regular o sono com técnicas, mas de interrogar o pacto inconsciente que sustenta esse mal-estar. Por que o sujeito se sente tão ameaçado pela ideia de descansar? O que ele teme perder se parar por algumas horas?

Renunciar à fantasia da carreira perfeita não significa abandonar o trabalho, mas repensar sua função na vida. Talvez o descanso não seja inimigo da produtividade, mas condição para que o sujeito possa se sustentar fora da lógica da exaustão. Dormir, nesse sentido, volta a ser um ato de confiança — não no ideal inalcançável da carreira, mas em si mesmo.

O inconsciente não dorme, mas pode ser escutado. Na análise, o trabalhador descobre que não precisa obedecer cegamente ao supereu que exige sempre mais. Descobre que há vida — e até sonhos — para além da vigília ansiosa. Talvez a verdadeira liberdade não esteja em alcançar a carreira perfeita, mas em permitir-se, finalmente, fechar os olhos.


Referências
Freud, S. (1900/2019). A interpretação dos sonhos. Companhia das Letras.
Lacan, J. (1960/1998). O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Zahar.
Organização Mundial da Saúde (OMS). (2017). Depression and Other Common Mental Disorders: Global Health Estimates. Geneva: WHO.
Associação Brasileira do Sono (ABS). (2022). Relatório Nacional do Sono: hábitos e impactos na saúde dos brasileiros. São Paulo: ABS.

Com escuta,

@psifer.praxedes

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Desejo sexual: entre a falta, o trabalho e o íntimo

17 setembro, 2025

Um ensaio sobre como homens e mulheres ressignificam o desejo sexual, não pela biologia, mas pela posição subjetiva que ocupam diante da falta — no corpo, no amor e até no trabalho.



O desejo sexual nunca é simples instinto. É construção, atravessado pela cultura, pela linguagem e pela forma singular com que cada sujeito se relaciona com a falta. Para o homem e para a mulher, o desejo não se organiza da mesma maneira — não por causa de uma essência natural, mas pelas diferentes posições psíquicas diante do gozo e da castração.


O desejo como experiência humana


Desejar é uma das marcas mais profundas da condição humana. Muitas vezes se pensa o desejo sexual como algo natural, quase automático, como se o corpo tivesse um instinto próprio a ser satisfeito. Mas não é bem assim. No humano, o desejo nunca é puro reflexo do corpo. Ele se mistura à memória, à imaginação, à cultura, às palavras que recebemos e às expectativas que nos atravessam.


É por isso que o desejo sexual é tão enigmático. Ele não se explica apenas pela biologia. Desejamos aquilo que acreditamos nos completar, aquilo que toca uma falta interna que nunca se fecha por inteiro. E, justamente porque não se fecha, o desejo nunca se esgota. Depois de cada encontro, sempre resta algo a desejar de novo.


Freud mostrou que o desejo se funda na falta, e que o sexo humano não é apenas descarga de tensão, mas construção de sentido. O prazer existe, mas o que move o desejo é a promessa de algo que nunca chega totalmente. Somos levados por essa busca incessante, que nos faz viver, criar e também sofrer.


O homem e a prova da virilidade


No campo da sexualidade masculina, aparece uma questão muito clara: a necessidade de provar a potência. O homem é educado, desde cedo, para acreditar que precisa mostrar que “tem” algo — força, controle, ereção, virilidade.


Isso gera uma armadilha: o desejo, que deveria ser entrega, passa a ser um teste. Muitos homens vivem o sexo como uma prova a ser vencida, e não como encontro. A ereção se torna atestado de identidade, e qualquer falha é vivida como desmoronamento.


Essa mesma lógica se estende para o trabalho. O homem, ao conquistar cargos, status ou dinheiro, muitas vezes tenta reafirmar ali a mesma potência que busca provar na cama. O reconhecimento profissional funciona como uma espécie de compensação simbólica: “se não sou desejado, ao menos sou bem-sucedido”.


O problema é que essa equação cobra caro. Homens que gastam toda a energia tentando garantir sua virilidade no trabalho chegam esgotados em casa. O desejo íntimo se esvazia, porque já foi entregue ao mundo produtivo. O parceiro ou a parceira recebe apenas o resto: cansaço, silêncio, falta de presença.


Ressignificar o desejo masculino significa aceitar a vulnerabilidade. Significa compreender que potência não é sinônimo de performance contínua, mas de abertura para o encontro, inclusive com a possibilidade da falha. A verdadeira força não está em provar, mas em sustentar a falta sem se reduzir a ela.


A mulher e o enigma do desejo


A experiência feminina do desejo sempre foi tratada como mistério. Freud falava do “continente negro”, porque percebia que a lógica masculina não explicava o modo como as mulheres desejavam.


Lacan aprofundou essa diferença ao dizer que a mulher não é toda regida pela lógica fálica, ou seja, pelo parâmetro da potência que organiza o desejo masculino. Existe no feminino um gozo suplementar, algo que não se mede, não se controla e não se traduz totalmente em palavras.


Na prática, isso significa que o desejo feminino pode ser mais fluido, menos linear. Ele não obedece a roteiros fixos, pode se intensificar ou se retrair conforme contextos afetivos, simbólicos, corporais. É um desejo marcado pelo excesso, mas também pela delicadeza.


Na contemporaneidade, as mulheres conquistaram liberdade para expressar seu desejo. Mas, junto dessa liberdade, veio uma nova cobrança: ser independente, ser múltipla, ser sempre ativa. Muitas relatam sentir o peso de performar um desejo que nem sempre está presente.


O trabalho também mudou o lugar da sexualidade feminina. Investir energia em carreiras e projetos deu à mulher novas formas de desejar e de se realizar. Mas trouxe também a sobrecarga: trabalhar fora, cuidar de casa, administrar relações. O corpo chega ao íntimo cansado, e o desejo se mistura à exaustão.


Ressignificar o desejo feminino é libertá-lo dessas duplas prisões: de um lado, a ideia de submissão; de outro, a exigência de liberdade total. O enigma do desejo feminino não precisa ser decifrado, mas sustentado. É na aceitação dessa complexidade que ele encontra sua potência.


Trabalho e sexualidade: duas cenas do mesmo desejo


O desejo não se divide entre “profissional” e “sexual” como se fossem esferas independentes. O que vivemos no trabalho ecoa no corpo íntimo, e o que experimentamos no íntimo atravessa a forma como nos relacionamos com o trabalho.


Ambos são campos de investimento libidinal: colocamos energia, expectativa, tempo. O sujeito que se doa inteiramente ao trabalho muitas vezes retorna para casa sem disponibilidade para o sexo. É como se tivesse “transado” com o trabalho — entregue sua libido ao mundo produtivo — e não tivesse mais nada a oferecer no encontro íntimo.


Outros, ao contrário, encontram no sexo um refúgio contra a lógica produtiva: o espaço onde podem deixar cair as máscaras do sucesso e do desempenho. A sexualidade, nesse caso, vira contraponto ao mundo corporativo, devolvendo ao sujeito um pouco de liberdade diante das pressões externas.


O problema é que, hoje, tanto o trabalho quanto o sexo correm o risco de serem vividos sob a mesma lógica de performance. No trabalho, a cobrança por resultados; no sexo, a cobrança por prazer constante, por intensidade, por variedade. Em ambos os campos, o desejo pode ser sufocado pelo imperativo de “funcionar”.


Ressignificar a relação entre trabalho e sexualidade significa reconhecer que ambos são atravessados pela mesma falta. Não precisamos ser completos nem no escritório, nem no quarto. O desejo se sustenta justamente porque algo sempre escapa — e é esse resto que mantém o movimento.


Mas, o trabalho não esgota o desejo apenas pelo excesso. Também pode esvaziá-lo pela falta. Quando o homem se encontra em um ambiente cômodo, sem desafios, sem reconhecimento e sem novidade, surge uma sensação de inutilidade. O trabalho, que antes era espaço de afirmação, perde o valor de atestado fálico.


Esse vazio repercute diretamente na vida íntima. O sujeito que não encontra estímulo no trabalho muitas vezes perde o brilho no olhar, a energia da conquista, o ímpeto que se transfere para a sexualidade. Sem sentir-se desafiado, sem experimentar o risco e a possibilidade de superação, o desejo esfria também em casa.


É como se o homem, ao não ter onde provar sua potência no mundo produtivo, perdesse também a disposição de exercitar sua potência no encontro íntimo. A falta de desafios profissionais pode levar à falta de desejo sexual, não por cansaço, mas por esvaziamento simbólico.


Ressignificar, nesse caso, significa compreender que o desejo não nasce apenas do conforto, mas também da tensão criativa. Tanto no trabalho quanto na sexualidade, é o encontro com o imprevisto que mantém o desejo vivo.


Na mulher, a relação entre trabalho e sexualidade assume outro desenho. Se para o homem o risco é sentir-se inútil quando o trabalho não desafia sua potência, para a mulher a armadilha pode estar na estagnação afetiva que o trabalho cômodo traz.


Quando o ambiente profissional se torna repetitivo, sem novidades, sem espaço para criatividade, muitas mulheres relatam sentir o desejo íntimo também amortecido. O corpo acostuma-se ao mesmo ritmo, a mente perde a excitação que vem do aprendizado e da superação. Sem estímulos externos, a vida sexual pode cair em um regime de inércia semelhante: encontros previsíveis, energia baixa, desejo sem força.


Mas há outro lado: enquanto alguns homens desanimam na sexualidade quando não são desafiados no trabalho, muitas mulheres, nesse mesmo cenário, acabam deslocando ainda mais libido para a casa, para os vínculos íntimos, como se buscassem ali o que o trabalho não oferece. Só que isso, muitas vezes, gera sobrecarga: esperar que a intimidade compense o que falta no mundo profissional pode transformar o sexo em obrigação ou em cobrança velada.


O paralelo mostra que, para ambos, trabalho e desejo caminham juntos. O desafio é encontrar equilíbrio entre o espaço profissional e a vida íntima, sem esperar que um substitua ou compense o outro.


Ressignificações contemporâneas


Vivemos um tempo em que se fala muito de igualdade entre homens e mulheres. Essa busca é justa e necessária, mas pode esconder uma armadilha: acreditar que homens e mulheres desejam da mesma forma. Não desejam. E é justamente essa diferença que sustenta a possibilidade do encontro.


O homem é marcado pela necessidade de provar sua potência. A mulher, por um desejo que escapa às medidas fálicas. Ambos estão atravessados pelo trabalho, pelo corpo cansado, pela cobrança social. Ambos sofrem com a lógica de performance que invade a intimidade.


Ressignificar o desejo hoje é aprender a sustentar essa diferença sem transformá-la em desigualdade. É recusar o ideal de que existe um modelo único de desejar. É aceitar que o desejo é sempre parcial, fragmentado, falho — e que é nesse espaço de imperfeição que a relação se constrói.


O que resta do desejo


No fim das contas, o desejo não é algo que se resolve. Ele não chega a um ponto de satisfação plena, porque sempre resta uma falta.


É essa falta que nos move: no amor, no trabalho, na criação, na vida sexual. Homens e mulheres não desejam da mesma maneira, mas ambos vivem essa mesma condição. O encontro nunca é perfeito, nunca é completo. E é justamente por isso que seguimos buscando, tentando, reinventando.


Ressignificar o desejo sexual, hoje, significa retirar dele o peso da obrigação — seja de potência, de liberdade, de performance ou de perfeição. Significa aceitá-lo como ele é: um movimento que nasce da falta, que nunca se esgota, que nos mantém vivos.


No trabalho ou em casa, no corpo masculino ou no feminino, o desejo continua a ser o que sempre foi: enigmático, inquietante, irredutível. Ele não nos dá a completude, mas nos dá algo maior: a possibilidade de seguir em direção ao outro, mesmo sabendo que nunca chegaremos ao todo.


Com Escuta,


@psifer.praxedes



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1 setembro, 2024